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23 02 2012

(Este texto é um pouco antigo por isso considerações temporais feitas na prosa devem ser entendidas dessa forma)

A Antropologia é a Ciência que se ocupa do estudo do Homem em todas as suas dimensões, entre as quais se encontra a Dimensão Religiosa. A Religião, ou crença no sobrenatural como sugeria E.B.Tylor, seria assim uma crença absoluta em algo que nunca estará ao alcance dos nossos sentidos. É uma prática comum à grande maioria dos povos que habitam o nosso planeta, e são muito raros os exemplos de povos que não crêm em algo.

Mas qual é a importância de um determinado povo ter uma determinada crença? Terá esta crença colectiva alguma função específica para a sobrevivência de um povo? Ao longo da história os diferentes povos, e diferentes tribos, sofrem carências, quer sejam biológicas quer sejam de cariz cultural. O aparecimento destas carências fazem surgir forças de ruptura que colocam em perigo toda a cultura, e dessa forma a sobrevivência do próprio povo. De entre essas forças a morte é claramente a maior força de desintegração social. Tudo o que ela representa é desconhecido, não se sabe se estava definido ser aquela hora naquele local ou se por outro lado é o destino da vida, ou lei da vida como se vulgarmente se diz.

A religião surge então como elemento de coesão que vai evitar que ocorra uma ruptura social completa. Encaremos de novo o exemplo da morte. A religião é a única estratégia que pode neutralizar os efeitos adversos da existência da morte, ou seja as pessoas tendem a recorrer ao sobrenatural para tentar encontrar uma explicação possível, por vezes uma fonte de consolo ou fonte de esperança. É dentro deste campo que surgem as histórias e crenças na vida para além da morte, que é uma crença existente e partilhada em diversas e tão diferentes religiões.

O que sabemos ao certo sobre a morte? Realmente muito pouco. O que existe para além dela continua hoje em dia a ser um perfeito mistério mas é a religião que de certa forma nos “acalma” o espírito, ou pelo menos para os crentes, e nos informa que a vida irá continuar para além do momento em que a nossa existência física cessar, este parágrafo poderá ser alterado se considerarmos outras religiões que tenham como crença que a existência física nunca cessa, ou seja o indíviduo permanecerá neste mundo mas num outro organismo, com outra aparência. Outras crenças ainda nos dizem que nos iremos todos reencontrar num reino superior onde não existe bem nem mal. Estas crenças garantem assim, de certa forma, que uma determinada sociedade ou cultura nunca tenha um fim, pois irá sempre existir na forma de uma cadeia contínua.

Desta forma podemos ver como a crença em algo de sobrenatural vai ao encontro do que Jean Cazeneuve afirma no excerto fornecido. O autor afirma que “o sagrado (…) se apresentar como o princípio sintético que permite à condição humana comunicar com uma realidade que lhe é transcendente (…)”, ou seja através da crença em algo com o qual não podemos contactar pelos sentidos, mas que a ciência também não pode negar a sua existência, estaremos a estabelecer um contacto directo com algo que é superior à nossa própria condição de seres mortais.

Mas não é só a noção de Morte que a Religião vem simplificar, a própria noção de Vida também ela é simplificada, mais específicamente a sua génese. Porque estamos aqui? Para que estamos aqui? Qual o sentido da vida? Todas estas questões são questões que nos transcendem e que filósofos e grandes pensadores procuram solução à centenas, talvez milhares, de anos. A Religião oferece assim aos crentes a resposta aos grandes mistérios da vida, respostas essas que são celebradas em ritos colectivos que asseguram a coesão social de uma sociedade, ou parte dela.

Abordei agora um tópico que penso ser essencial quando se trata, em modo de reflexão, o poder da religião: os ritos. Apesar da sua importância, como se pode observar anteriormente, os ritos colectivos representam apenas uma pequena porção do tempo que é dedicado à prática religiosa. A grande porção do tempo é ocupada por ritos pessoais, ao que se dá o nome de oração. A oração é assim um período de reflexão pessoal, em que certas determinadas culturas acreditam ser uma altura em que se conversa directamente com Deus.

Esta é uma crença que com o passar dos anos sofreu claramente o efeito de uma chamada “ocidentalização” e muitos dos ritos pessoais que o ser humano praticava passaram a ser julgados como vulgares superstições pois não preenchem os requisitos de uma determinada crença maioritária.

O tempo dedicado ao sagrado, aquilo que para nós possui mana, é um tempo muito importante e que a cada dia perde o seu valor. O que para um sujeito tem mana para outro poderá não ter, pois nem todos os seres humanos possuem as mesmas crenças. Para existir oração não é necessário ter uma ligação com uma das ditas grandes religiões; o tempo de oração, ou tempo dedicado ao sagrado, é um período em que um sujeito se encontra em introspecção e está em contacto, vulgarmente, com objectos que para si representam algo de importante, de especial, e lhe oferecem um sentimento de conforto e esperança num futuro que muitas vezes é desconhecido. Estes objectos não têm que necessariamente ser figuras ligadas a uma religião como representações de santos, crucifixos, terços. São antes ídolos pessoais pois representam, por exemplo, um determinado período em que passámos por adversidades e as superámos ou, noutro exemplo, nos foi oferecido por alguém que nos é especial e no qual depositamos também a nossa confiança e crença.

Actualmente, é fácil observar a grande banalização que as crenças religiosas sofreram. Desde o uso de terços ao pescoço como acessório de moda, e em caso mais grave a modificação dos próprios terços para que fique esteticamente mais chamativo e interessante ao cliente, como foi feito por Cristiano Ronaldo, até à transmissão das celebrações religiosas por meios televisivos que, muito embora possam servir uma pequena população que não tem possibilidades de se deslocar a um local sagrado para participar nas celebrações, também elas sofreram de uma clara banalização por parte da sociedade moderna, sendo o maior exemplo dessas situações o intervalo para compromissos comerciais durante a própria celebração ou o comentário em voz-off, ofuscando por completo a riquesa e solenidade do rito.

Tomemos rapidamente o exemplo que provavelmente nos estará mais acessível em memória: a recente deslocação ao nosso país do Papa Bento XVI. Em quantas reportagens não foi comparada essa deslocação com o Euro 2004, um evento desportivo? Não é uma clara banalização de um acontecimento que, no mínimo, deve ser tratado de uma forma mais formal ou discreta? Porque mesmo que não se acredite no Catolicismo o Papa não deixa de ser o representante máximo de um estado, o Vaticano. Foi um fenómeno que movimentou massas, tal como o referido evento desportivo, e que durante semanas que antecederam a deslocação e durante a própria deslocação sofreu uma transmissão televisiva quase a tocar o inadmissivel e invadindo por vezes a privacidade que tão solene momento deveria ter. Outro aspecto importante referir foi a comercialização massificada deste fenómeno que desde t-shirts a bandeiras alusivas ao Papa viu surgir. O que para alguns enriquece em crença e em contruçao pessoal, a outros enriquece a conta bancária e a sede de ter mais e fazer mais, a gula de ser mais que os outros e obter lucro não olhando a meios, não olhando a tabus.

Em suma, a sociedade actual vive num quase completo distanciamento daquilo que é sagrado, existindo uma discrença na prática de ritos que poderiam auxiliar as sociedades a atravessar períodos de graves rupturas sociais, como é o caso da recente crise económica em que nos encontramos. Os sujeitos cada vez mais crescem, e são educados, numa sociedade vocacionada para o aqui e agora, que perdeu toda e qualquer prática que o fizesse olhar para o passado e reflectir sobre o que é intemporal e de que forma esses fenómenos podem afectar o seu aqui e agora. Assim, cada vez mais caminhamos para ter um mundo composto por seres humanos limitados à sua condição de ser mortal, que tem uma passagem cada vez mais efémera e sem conteúdo por um mundo que tem tudo para oferecer e ainda um outro tudo por descobrir.

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